My Eco Dolls — and the Eternal Question of Pricing Handmade Goods

13/100

[scroll down for English]

Ando a preparar a minha participação no Artists Open Studios em Whanganui e tenho cabeça (e as mãos) cheia de bonecas. De bonecas e de sentimentos algo contraditórios em relação a esta actividade de fazer bonecas para vender.

Adoro estas bonecas. Chamo-lhes “eco dolls” porque são feitas com materiais naturais e quase todos os tecidos são reciclados. Uso panos antigos, algodões vintage, fazendas de caxemira, enchimento em pura lã de merino. Coso-as com dedicação e empenho e esforço-me ao máximo para que fiquem bem feitas. Acabam sempre com uma ou outra pequena imperfeição, mas isso é inerente a qualquer produto feito à mão. Ficam com um tamanho que considero óptimo: são bonecas grandes e com um certo peso, são substanciais. A meu ver, são bonecas com alma.

Mas estas bonecas demoram muito tempo a fazer. Diria quase que demoram demasiado tempo. Demasiado tempo para serem rentáveis, muito sinceramente. E aqui entramos no complicado assunto de definir o valor monetário de um objecto feito à mão. Sim, há formulas para calcular isto, mas serão realistas? Ou exequíveis? Tudo depende do mercado a que o produto se destine. Já vi bonecas deste género serem vendidas por $30, $100, $300, $1000. Eu própria ainda não consegui definir um preço para as minhas com o qual me sinta confortável.

Enfim. Este assunto daria para muitas horas de discussão e eu hoje não me sinto particularmente eloquente. É um tema delicado, que toca em questões complexas: questões sociais, económicas, feministas, históricas. Hoje fico-me por aqui, mas sei que este assunto continuará a ocupar a minha mente. Como sempre, os vossos comentários são muito bem-vindos!

***

I’m going to take part in Whanganui’s Artists Open Studios and my mind (and my hands) has been occupied with dolls. With dolls and with some mixed feelings about making dolls to sell.

I love these dolls. I call them “eco dolls” because they’re made with natural materials, most of them upcycled. I use old textiles, vintage cottons, cashmere fabrics and merino wool stuffing. I stitch them with care and I don’t cut corners. They inevitably end up with some minor imperfections but that’s all part of a handmade product. I love that they’re big dolls, with some weight to them — they feel substancial. As I see them, they’re dolls with soul.

But these dolls take so long to make. I’d go so far as to say that they take almost too long. Too long to be profitable, anyway. And here we enter the very sticky subject of pricing handmade goods. Yes, there are formulas out there for this, but are they realistic? Or even doable? It all depends on one’s target audience. I’ve seen handmade dolls being sold for $30, $100, $300, $1000. I personally have yet to come up with a price that makes me feel comfortable.

Oh well. This is one of those subjects that we could discuss for hours on end and I’m not feeling very articulate today. It’s a delicate theme that deals with so many complex questions: social, economic, feminist and historic ones. I’ll going to end this post now but I know this whole subject will continue to occupy my thoughts. As always, your comments are very welcome!

Sophia the cloth doll, or the importance of play in one’s creative life

[scroll down for English]

Passei praticamente todas as minhas horas livres em Maio a fazer esta boneca. Comecei-a em 2012 (ao mesmo tempo do que esta, lembram-se dela?) e, já não sei bem porquê, de repente senti uma vontade enorme de acabá-la. A sua destinatária — que, na altura, tinha apenas 2 anos — já está na escola primária e, entretanto, ganhou duas irmãs. A perspectiva de fazer uma boneca com enxoval completo para três irmãs transformou-se rapidamente numa obsessão. Requisitei livros na biblioteca, peguei finalmente naqueles livros antigos que ando a coleccionar há anos, adormeci a pensar em bonecas, acordei a pensar em bonecas, recordei as bonecas da minha infância, as suas roupas e a maneira como eu brincava com elas. Curiosamente, as bonecas que mais me marcaram foram as de casa da minha avó: lembro-me de uma ruiva sardenta que tinha um impermeável amarelo com um chapéu a condizer e um fato de bailarina, e dos sapatos brancos de outra.

Bem, voltando a esta boneca de pano: é uma Poppy Doll. Quanto ao guarda-roupa, bem, esse foi feito sem moldes (excepto a camisa de noite). Aliás, usei moldes, sim, mas desenhei-os eu. E aqui entra a segunda parte do título deste post: a importância de “brincar” durante o processo criativo (escrevo brincar entre aspas porque não adoro a palavra neste contexto… mas enfim, acho que me conseguem perceber).

Deixem-me começar por dizer que não sou contra moldes. Bem pelo contrário: um molde de qualidade é, normalmente, garantia de sucesso, bem como um excelente ponto de partida para outros voos. Tenho comprado inúmeros moldes de costura ao longo dos anos e gosto de saber que, ao fazê-lo, estou a apoiar o trabalho das suas autoras (que, muitas vezes, são mulheres em situações muito parecidas com a minha). Vou continuar a comprar moldes e a encorajar outras pessoas a fazer o mesmo. Mas, por vezes, sabe bem criar algo sem base de espécie alguma. Fazer desenhos, provas em pano cru, duas, três, quatro tentativas, até conseguir concretizar aquilo que imaginei.

Ao longo deste mês deitei muitos ensaios fora. Senti-me frustrada, cansada, mas nunca desencorajada. Continuei a tentar e lá fui conseguindo fazer aquilo que queria. E já adivinham o que vou escrever agora: aprendi imenso! E também me diverti imenso!

Tive também a oportunidade de praticar a minha actividade preferida: dar novos usos a materiais antigos. Toda a roupa desta boneca foi feita com tecidos em segunda-mão, muitos deles aproveitados de antigas peças de roupa. O vestido e a blusa branca eram camisas de noite que comprei em lojas de caridade. As botas de feltro já foram uma camisola de lã (podem ler mais sobre feltro feito em casa aqui). A capa de fazenda já foi uma saia. O saco-cama foi feito com um pano de tabuleiro bordado, um cobertor antigo, um bocado de chita a fazer de colchão e um resto de bordado inglês que me sobrou das minhas capas de édredon (a inspiração para o saco-cama veio desta ideia da Florence).

Muitas vezes caio na armadilha de pensar que, pelo facto de o meu tempo livre ser limitado, tenho sempre de ser produtiva, eficiente, prática. Mas estou tão contente por ter dedicado um mês inteiro a este projecto. Sinto que expandi os meus conhecimentos de costura e que valeu a pena todo o investimento de tempo, esforço e dedicação. Esta boneca trouxe-me luz em dias escuros e entusiasmo em momentos monótonos. Agora espero que faça as delícias de três pequenitas em Lisboa.

 

I spent all of my free time in May making this doll. I had started it back in 2012 (at the time, I cut two dolls and only finished one — remember her?) and last month I felt the sudden urge to finish it. She’s meant for a girl who was 2 years old then and is now in primary school, having gained two sisters along the way. The idea of making a doll and her wardrobe for three sisters quickly developed into an obsession for me. I borrowed books from the library, I finally read all those old books I’ve been buying over the years, I went to sleep and woke up thinking about dolls, I reminisced about own childhood dolls, their clothes and the way I used to play with them. Funnily enough, I thought mostly about the dolls that I used to play with at my grandmother’s: I remember a freckled, red-haired one that had a yellow raincoat and a matching hat, as well as a ballerina outfit, and a particular pair of white doll shoes also came to mind.

Anyway, back to this cloth doll I made: it’s a Poppy Doll. As for her clothes, with the exception of the nightie, they were made without patterns. I mean, I used patterns but I drew them myself. And now comes the second part of the title of this blog post: the importance of play in one’s creative process.

Let me start by saying that I’m not against sewing patterns. On the contrary: a good quality pattern is usually a recipe for success, as well as a wonderful starting point for other creations. I’ve bought numerous patterns over the years and I like knowing that, by doing so, I’m supporting the work of their authors (who are usually women in similar situations to my own). I’m going to keep buying them and encouraging others to do the same. But sometimes it feels good to create something without a base whatsoever. I sketched on paper, I sewed two, three, four toiles, until I managed to achieve what I had in mind.

Throughout this past month I often felt frustrated and tired, but never discouraged. I kept trying and I somehow got to where I wanted to be. And I’m sure you’re guessing what I’m about to write: I learned so much! And I had so much fun!

I also had the change to practise my favourite activity: giving new uses to old materials. This doll’s wardrobe was entirely made with second hand fabrics, most of them repurposed from old clothes. The dress and the white blouse were originally nightgowns I bought in charity shops. The felt boots used to be a wool jumper (more on homemade felt here). The cape was salvaged from a skirt. Her sleeping bag was made with a mid-century embroidered tray cloth, an old wool blanket, a piece of Portuguese chita that makes me think of ticking mattresses and a piece of border anglaise left over from my duvet covers (the inspiration for the sleeping bag came from Florence’s adorable bear sleeping bags).

I often fall in the trap of thinking that because I’m time poor, I must always be productive, efficient, practical. But let me tell you how happy I am to have dedicated a whole month to this project. I feel that I’ve expanded my sewing knowledge and that all the time, effort and dedication have been well worth it. This doll brought me light in dark days and excitement in dull moments. Now I hope it will delight three little girls in Lisbon.