Coisas :: Stuff

A Megan Auman criou um manifesto muito interessante: chama-se Stuff Does Matter e pretende celebrar as coisas que enriquecem as nossas vidas. A ideia de que consumir é negativo e de que nos devemos apegar ao mínimo possível de coisas materiais é exagerada e irrealista. A Megan defende que o problema da sociedade actual prende-se não com o facto de conferirmos demasiada importância aos objectos, mas com a circunstância de lhes darmos muito pouco valor (isto faz-me imediatamente pensar em roupa barata que dura apenas uma estação, por exemplo). Há que consumir conscientemente. Uma das máximas de William Morris é “Não tenha nada em casa que não considere útil ou bonito” e é assim mesmo que devemos gerir a nossas aquisições. Há que pensar antes de comprar. Posso parecer maníaca, mas recuso-me a comprar coisas feias (sim, nem todas as caixas de fósforos são criadas iguais). E, se for impossível evitar uma embalagem horrorosa, quando chego a casa transfiro o conteúdo da dita embalagem para um recipiente mais agradável. Afinal, são estas coisas que vejo todos os dias. Por que razão não lhes hei-de dar importância?
Este cesto de picnic é um bom exemplo de algo que torna as nossas vidas bem mais giras — algo que constrói memórias. Nem há um mês estávamos instalados nesta casa quando recebi esta encomenda surpresa pelo correio: a minha mãe comprou-o através da Amazon e mandou entregá-lo cá em casa (infelizmente estes cestos não são enviados para Portugal, mas qualquer pessoa pode comprar um cesto e recheá-lo com pratos de faiança, copos de vidro, guardanapos de pano, etc.). Já o usámos dezenas de vezes, só nós os dois, com visitas, e agora em passeios a três. Dar-me-ia o mesmo gozo usar um saco isotérmico e pratos descartáveis? Nem por isso.
Claro que não sou perfeita e por vezes sucumbo a impulsos e faço compras de que me venho a arrepender mais tarde. Isto é uma declaração de intenções, não um atestado de virtude. O segredo é tentar comprar (ou fazer!) coisas com qualidade. O segredo é tentar consumir menos, mas melhor.

Megan Auman has created a very interesting manifesto: it’s called Stuff Does Matter and it’s intended to celebrate the things that enrich our lives. The belief that consumption is something negative and that we should let go of material things is exaggerated and unrealistic. Megan advocates that our current problem is not a result of placing too much value on stuff, but too little (disposable fashion comes to mind). One must consume with conscience. This makes me think of a famous William Morris quote: “Have nothing in your house that you do not know to be useful, or believe to be beautiful.” We should think before buying. I may seem like a maniac but I refuse to buy ugly stuff (yes, not all match boxes are created equal). And if it’s really impossible to avoid ugly packaging, I’ll transfer the contents into a more pleasing container once I get home. I mean, these are the things I see everyday… why shouldn’t they matter?

This picnic hamper is a good example of something that makes our lives more agreeable — something that builds up memories. We hadn’t even been living in this house for a month when the postman delivered us a surprise parcel: my mother bought the hamper through Amazon and asked for it to be sent directly to us. We’ve already used it dozens of times: just the two of us, with house guests, and now on outings with the baby. Would it be as pleasurable to go for picnics with a mere isothermal bag and some disposable plates? Not quite.

Of course I’m not perfect and will sometimes succumb to impulse buys that I regret later. This is a declaration of intention, not a certificate of virtue. The secret is to try and buy (or make!) things with quality. The secret is to consume less, but better.

para obter uma cópia do manifesto, basta carregar aqui
get your own copy of the manifesto here

(photo: Tiago Cabral; manifesto: Megan Auman)

19 thoughts on “Coisas :: Stuff

  1. twiggs says:

    adoro este post! é uma verdade sim, e além do mais, até podemos pensar que se todo o mundo embarcasse nessa ideia de não nos apegarmos às coisas, a economia mundial conheceria dias bem negros! tal como dizes, tudo tem a ver com a forma como se compram as ditas coisas! adoro o cesto e acho que é muito teu, como jamais seria teu um saco desses isotérmico e pratos de plástico! tb gosto de coisas bonitas, e a parte do texto sobre os fósforos fez-me lembrar o prazer que tenho em comprar as caixas amarelas com a andorinha preta da Golondrina. e ao invés de prazer, causa-me arrepios as roupas que algumas amigas compram em lojas dos chineses… baratinhas baratinhas, com um padrão engraçado, mas o tecido é fraquinho fraquinho, que se chegar até ao final da estação é uma vitória!

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  2. Virgínia says:

    Gostei muito, Constança. Eu tenho vindo a dizer o mesmo, com outras palavras. A vida é o dia-a-dia e nós podemos fazer dela algo muito agradável. Eu sinto horror por coisas feias e mal feitas. Já os pequenos detalhes bonitos e feitos para durar fazem-me feliz, sempre que olho para eles. Não percebo como se pode vestir tecidos desagradáveis ao toque ou calçar sapatos baratos de plástico. Na maioria das vezes não é uma questão de dinheiro mas sim uma questão de amor próprio, penso eu.

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  3. Cat says:

    oOra aí está uma visão equilibrada sobre “as coisas”. A estética das coisas que nos rodeiam é tão importante para o nosso bem estar como a sua utilidade. As coisas feias deixam-me mesmo angustiada.
    Quanto ao valor que damos às coisas, há um lado no movimento minimalista que me agrada pela ideia de simplificar a nossa vida mas… há objectos que me relembram vivências, pessoas e o meu percurso e com os quais eu gosto de conviver. Temos é que encontrar o nosso equilíbiro.

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  4. Sara Coutinho Soares says:

    Fazer piqueniques é um hábito que temos – eu e o dear husband – desde os tempos de namoro até agora com 3 filhos pequenos. E fazêmo-lo sempre com uma cesta parecida com essa (comprada cá em Portugal há uns 8 anos). Temos muitas memórias boas de longas tardes passadas na relva, a olhar o céu. Temos a certeza de que são momentos destes, simples mas verdadeiros, que os nossos filhos um dia mais vão recordar com carinho.

    E é tudo muito verdade. Por mais ridículo que possa parecer agora com a crise, é preferível comprar coisas que durem mais, ainda que custem mais, como os nossos avós faziam (que passaram pelos anos difíceis das guerras mundiais). Quantos de nós não guardam ainda coisas dessa altura? Duraram até hoje.

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  5. {entreter os dias} says:

    Não podia estar mais de acordo, sou uma devota, convicta, do bonito e bom!!! Sempre fui, mesmo nas pequenas coisas. Prefiro demorar mais uns tempos a comprar, mas ser aquilo que acho que vai durar e estar connosco muitos anos!!!
    Um beijo grande daqui do norte, com um sol lindo, muito calor e o mar a brilhar…um atentado à nossa paciência e ao fim das nossas férias *_*

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  6. Billy says:

    Olá Concha,

    Também tenho um cesto de piquenique que levo para a praia aqui no Panamá. Levo copos de vidro para o vinho e a água filtrada em garrafas, também de vidro. Embora os frios tenham mesmo de ir na arca isotérmica (que não é bonita por aí além), dá-me um gozo imenso comer com garfo na praia.

    Beijinhos e bons piqueniques!
    Billy

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  7. Ali says:

    in the throes of feeling overwhelmed – that our house is bursting at the seams with stuff, I found that message really thought provoking. Thank you for sharing it.

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  8. quinn says:

    Although I may agree with many of the observations made in the post you linked to, I must point out that it is not, by definition, a “manifesto.” (Sorry, but I hate to see a word used incorrectly, and especially in a context likely to be perpetuated. Former teacher, here.)

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  9. Boo's Mom says:

    Thank you. Your post and the “manifesto” put words to feelings I have had for quite some time. I love my stuff, but when a wildfire threatened our home, I left with the humans, the animals, the rocking chair I nursed by daughter in and very little else. Thankfully, the fire didn't reach our house, but if it had, the stuff that really mattered had been saved and I would have begun accumulating new stuff.

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  10. Silvia Orchidea says:

    Constança,
    Ainda uso confortavelmente as cadeiras de jantar que pertenceram aos meus avós, lá se vão 90 anos! ao longo destes anos só a palhinha do assento foi trocada algumas vezes… acredito que eles praticavam o uso consciente e eu prossigo nos mesmos passos. Espero que os meus filhos herdem essas cadeiras…:-)

    Teu filho um príncipe ladeando a linda cesta!, como está crescido!
    Brevemente fará parte daquele grupo de jogadores elegantes em branco ao fundo da foto… 😉
    abraços
    S.O.
    Rio
    Brasil

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  11. Vchapéus says:

    Consumir conscientemente e belo – palavra usada muitas vezes pelo meu prof de História da Arte quando apresentou o movimento Arts and Crafts! Defendemos! Adorámos o post! Parabéns

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  12. sisforsewing says:

    Adorei Constança! Apesar de só agora ter oportunidade de ler o post, não posso deixar de estar mais de acordo. Consumir com moderação e critério sempre fez parte da minha filosofia de vida e espero conseguir deixar esse legado aos meus filhos. Felizmente, cá em casa todos preferimos a qualidade à quantidade e temos “tantos” objectos especiais que certamente irão continuar a fazer parte da nossa história – e na sua maioria são mesmo “handmade”.
    Obrigada pela partilha!

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